terça-feira, 21 de setembro de 2010

Relembrando - Os guardinhas

Reinaldo Cabral

“Esquerda, volver!”

Foi a primeira lembrança ao ver algumas fotos antigas que chegaram à redação do Jornal Comunicação Regional. Fotos de um tempo que marcou época e história em Aparecida: a instituição chamada de Guarda Mirim, conhecida carinhosamente por “guardinha”, composta por crianças que hoje se tornaram pais e avós. E de vez em quando, por acaso dos encontros de um tipo de velha guarda oculta, vem os diálogos saudosistas desse projeto que começou em meados dos anos 50. O guardinha de número “40” bem sabe.

De acordo com registros, a Guarda Mirim foi fundada no dia 10 de março de 1954, por iniciativa da professora e historiadora Conceição Borges Ribeiro Camargo, que se manteve à sua frente até 1964, com a finalidade educacional e ocupacional dos adolescentes. Entre as ocupações dos guardinhas de Aparecida, estava a de vigiar veículos, orientar e informar os romeiros quando da visita ao museu de Nossa Senhora, dirigido, tempos depois, pela citada profª. Conceição.

Segundo depoimentos, as primeiras instruções foram aplicadas onde hoje é a rodoviária, em um tipo de galpão comercial no qual acontecia uma feira semanal.

Nascia em Aparecida o propulsor dos projetos que se seguiriam anos depois, a exemplo do Núcleo de Apoio ao Adolescente, amparado no estatuto da criança e do adolescente, e o atual CIFAC (Centro Integral de Formação ao Adolescente e da Criança).

Além de sua fundadora estar a frente, havia também a necessidade de que alguém fosse o orientador e coordenador daquelas dezenas de adolescentes. Nessa atuação, estiveram junto à fundação homens que tinham formação militar, como o Sargento Aristeu. Tempos depois vieram os cabos Silva e Chicão e o Sargento Mario. Havia uma hierarquia e alguns meninos tinham as divisas de cabos e sargentos.

Logo após a primeira fase foi fundado o Instituto Educacional Mirim de Aparecida, que acolheu a estrutura da primeira fase da guardinha. O Instituto foi composto por diretoria e presidente. Roberto Reis Castro e Aziz Chad foram os baluartes dessa fase com o apoio de muitos aparecidenses. Hoje um deles descansa na Casa Rosa

Conviviam juntos dos Guardinhas, os chamados “engraxates”, que ocupavam a mesma sede e disciplinas regimentais militares exigidas aos guardinhas. Marcha diária, corte de cabelo, o uso do quepe eram exigências, o que contrariavam alguns, pois a moda era dos cabeludos, influenciada pela onda da época.

Os uniformes dos guardinhas tinha a cor amarelo claro; já dos engraxates a cor era o cinza (e uma lembrança do azul), que por sinal era mais barato.

A meu ver, havia uma rivalidade juvenil oculta: Guardinha versus Engraxate.

Os Engraxates e Guardinhas eram bem organizados, cada qual tinha seu ponto com rodízio periódico. A época também colaborava com o faturamento, os sapatos bicos finos era o auge da moda, mas o que alegrava a garotada de engraxates eram as botas sanfonas e envermelhadas dos romeiros que se hospedavam nos hotéis de Aparecida. Já os guardinhas eram os responsáveis pelas vendas de adesivos com os quais os visitantes tinham a vigilância de seus veículos. Uma gorjeta caía bem nos bolsos com a estampa da instituição. Um Triângulo e um Cão e as palavras “Honestidade, Lealdade e Igualdade. Época que não havia essa coisa de pagar forçadamente para não ter seu carro arranhado nos estacionamentos públicos.

Final dos anos 60 e início dos 70, foi o apogeu do instituto. Testemunhei esse período. Ser Guardinha ou Engraxate era a grande satisfação dos pais, pois viam seus filhos ocupados após os horários escolares na área educacional e profissional; além do quê, as comissões das vendas de adesivos, os resultados dos engraxamentos contribuíam muitas vezes com a renda familiar. Vi alguns Engraxates que após um dia de trabalho e com marcas nos braços das pesadas caixas, antes de chegarem em suas casas, paravam nos armazéns e compravam os alimentos para sua família; outros entregavam para suas mães todas aquelas notas manchadas da negra graxa.


Eram coadjuvantes as lojas do Marreta, onde tinham os tecidos dos uniformes, e a do senhor Arnaldo, com os materiais dos engraxates.

Um episódio a parte. A polícia da época procurava inibir os chamados vendedores de quadrinhos que praticavam uma venda ilícita de cartões postais. Por ocasiões os Guardinhas fardados acompanhavam os policiais e voltavam vangloriosos para suas casas crentes que eram eles que tinham colocado em fuga os malandros.

Paralelamente com as atividades profissionais, acorria a formação religiosa e a Musical, dando origem a vencedora de dezenas de troféus na região e estado: a inesquecível Banda da Guardinha de Aparecida. Nas manhãs de quinta feira, era sagrado, os músicos mirins da Guardinha tinha também a responsabilidade de tocar na abertura da tradicional missa do Santíssimo.

Podemos dizer que Banda da Guardinha teve descendência musical da “Banda do Pe. Fré”.

Importante participação desse Redentorista. Pe. Pedro Fré, hoje Dom Fré, incentivador musical das crianças da época, criando a primeira banda com juvenis para apresentações religiosas que durou curto tempo, cujos instrumentos foram para Banda da Guardinha. Os músicos que compunham a Banda do Pe. Fré foram os primeiros instrutores musicais, a exemplo do saudoso Pedro Aparecido Barreto

(O soldado Barreto).

Tempos depois, outras pessoas instruíram musicalmente os adolescentes. Tenho em minha lembrança o sr. Miguel Chad, que, numa manhã típica de vestibular musical, disse para alguns meninos, que queriam tocar na banda da guardinha.

- Vamos, garoto. Toque seu instrumento.

Faltou fôlego para a corneta de FÁ ou de Sí. Foi aí que o um magro garoto percebeu que seu instrumento preferido seria o violão...

Ao final de tarde, aconteciam os ensaios e ecoavam pelos morros de Aparecida a sonoridade marcial e outras melodias.

No dealbar dos dias festivos acontecia a epopéia, quando os meninos queriam ser heróis do desfile cívico com as balizas abrindo alas para a Banda da Guardinha sonorizar as ruas e as ladeiras de pedras aparecidenses. Os passos e compassos. O Divino. Uma manta asfáltica e mantra azul ainda os guardam.

Hoje, para alguns, quando descem a curta ladeira Monte Carlo onde era a sede, e antes de seu final olham à direita, e avistam além dos portões, onde está o Senhor frente à continência de Betinhos, Getúlios, Ivans, Tiaias , Zé Carlos e tantos meninos sorrindo e acenando esperando seus regressos...

Mas o tempo passa e, como reflexo da boa educação e assistência infantil, geraram-se profissionais bem sucedidos, empresários, tenentes, professores, motoristas exemplares, engenheiros, gestores municipais, policial rodoviario, comerciantes responsáveis, pais de família e bons profissionais em várias atividades. Alguns tiveram outros destinos.

Outros são jornalistas e contadores de histórias... Guardiões com o escudo em forma de impresso e fotos de um tempo que hoje é pura memória e saudade!

E a batalha continua:

“Pelotão em frente!!”

Arte em muros na entrada de Aparecida.

A Academia Happy Day de Aparecida, com a consciência do melhor paisagismo em muros do seu prédio, convidou artistas da região para criarem...

Lançamento do Livro "Pelos Caminhos da Estrada Real"